Polémica brasileira na França

Posted on Jul 7, 2020

Tudo começou com uma entrevista do diretor de futebol do Lyon Juninho, melhor dizer, um desabafo sobre a situação no Brasil. O jornalista brasileiro Thiago Rabelo que fez, para o The Guardian, até se surpreendeu com a carga emotiva do Juninho, a entrega total durante 2h30 de conversa. Longe de ser aquela entrevistada formata, Juninho deixou a emoção falar, ele falou com o coração, avec ses tripes (com as tripas), como dizemos na França, e com as lagrimas também.

As colocações do Juninho sobre a situação atual do Brasil misturam revolta, bom senso, sensibilidade, expondo a fria realidade do país. Que muitos franceses, europeus, não conhecem. Sim, no Brasil morrem crianças, adolescentes, inocentes, todo mês, pelas balas de policias.
Juninho: “Como é possível um menino de 18 anos ser morto a tiros pela policia como aconteceu esse ano no Complexo do Alemão ? Como se pode viver depois disso ? E inacreditável.” 

Foto: Thiago Rabelo

Mas a parte que gerou polémica foi quando ele citou o Neymar. “Vejam o Neymar. Foi para o PSG só para o dinheiro. PSG deu tudo para ele, tudo o que ele queria, e agora ele quer sair antes do fim do contrato. Mas agora é o momento de retribuir, de mostrar gratidão. É uma troca, sabe. Neymar precisa dar tudo o que pode em campo, mostrar foco total, responsabilidade e liderança. O problema é que o establishment no Brasil tem a cultura da ganância, sempre quer mais dinheiro. Foi isso que nos ensinaram e que aprendemos.

Me marcou a palavrão gratidão. Me lembra cada vez que vou fazer uma matéria sobre as origens dos craques brasileiros da atualidade e me deparo o quanto os treinadores, educadores, descobridores deles sentem pela falta de gratidão das crias deles, hoje astros milionários. Esses formadores que deram lanche, carona, chuteiras, remédios a essas crianças…e além disso, o mais importante tal vez, um lazer na vida deles e um suporte para as famílias. Sem eles, quem sabe onde esses jogadores seriam hoje ?
Mas eles não são lembrados, continuam levando os meninos no mesmo Fusca, morando na mesma casa simples, mas dedicando a mesma energia e paixão para conseguir pão e queijo para o lanche da escolinha de futebol.

Juninho separou o jogador Neymar, “no top 3 mundial, do mesmo nível de Cristiano Ronaldo e Leo Messi” da pessoa que “deveria se questionar e crescer mas que acaba fazendo o que ele foi ensinado a fazer”. Juninho fala sobre gratidão mas a imprensa francesa só ressalta uma provocação, já que o Neymar é o próximo adversário do Lyon na Final da Copa da Liga. Quem assistiu The Last Dance sabe que não é bom maltratar o ego de um campeão, e é obvio, o Neymar detestou a fala do Juninho.

Pode se transformar em tiro no pé para o Lyon mas mesmo assim o Leonardo, irritado, não deixou barato. “Não entendo porque Aulas (Presidente do Lyon) fala tanto do PSG. E Juninho, agora, fala de Paris e de Neymar. Seria melhor falar do clube deles. Nós não falamos da situação do OL e peço para o OL não falar dos nossos jogadores e do nosso clube”. Leonardo que quase não fala com a imprensa, raramente da entrevistas (ainda menos para falar sobre temas de sociedade). Ele deve ter se esquecido dos tempos de comentarista na TV italiana e do funcionamento da imprensa que vive de poder conversar com os atores importantes do futebol. Mas ele reage quando se fala (mal, obviamente) do PSG. E é sempre para se queixar do tratamento feito ao clube, do ambiente “negativo” que seria criado no entorno do PSG.

Afinal ele esta no papel do diretor defensor da instituição que o paga, tudo bem. Mas ficou no campo raso do futebol futebolístico quando o Juninho abordava uma dimensão bem mais elevada. Perdeu a chance de se elevar também, como brasileiro, respeitado no Brasil, fundador junto com o Raí da ONG Gol de Letra.